Com os dentes que ainda me restam

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Este é um livro sobre homens – homens simples, vis, grotescos, mas indiscutivelmente banais. Daqueles que se encontra em qualquer esquina. Daqueles cheios de medo de errar, de empobrecer, de brochar. Com todos os seus delírios de grandeza, suas máculas de desejo, seus traumas de infância. Não há almas elevadas almejando o Paraíso, mas almas subalternas tentando escapar das chamas infernais com o mínimo de queimaduras. O que não é banal, de toda forma, é o prisma através do qual podemos enxergar seus interiores nos contos de Com os dentes que ainda me restam. Francos, assumem a precariedade do que trazem dentro de si. O mérito de Glauber da Rocha como autor, que transborda na rudeza deste livro, é dar voz aos devaneios e temores destes homens. Em lugar de polir com deslocados recursos estilísticos as falas destes personagens, Glauber opta por ser meramente um canal para que se expressem. E, assim, o que poderia ser um exercício de vaidade autoral converte-se em testemunho cru, e muitas vezes desagradável, dessas vidas. A maior parte dos narradores aqui é muito pobre materialmente, como o ex-presidiário que aceita a encomenda de um assassinato tanto por dinheiro quanto por luxúria. Mas outros são apenas espiritualmente pobres, como o dono de restaurante que enlouquece diante da obsessão com a fiscalização de seu estabelecimento; como o investigador que não consegue deixar passar um suicídio mal-esclarecido; como o homem que enriqueceu com a limpeza de fossas sanitárias, mas que não consegue abandonar seu rancor dos tempos em que as limpava com as próprias mãos. Todos eles lutam com as armas que tem contra o que os torna miseráveis. Em alguma medida, sempre fracassam.

Roberto Pedretti

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