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Na sala de espera de um consultório dentário

Publicado por em 19 de junho de 2012 em Crônicas | 2 comentários

POR RODRIGO NOVAES DE ALMEIDA

Leio uma velha revista náutica na sala de espera do consultório do dentista. Tratamento de canal, um nome bonito para se arrancar os nervos, que são enrolados numa agulha fininha e depois puxados de uma só vez. Coisas da vida, tortura com hora marcada e nosso consentimento. Será que Osama tinha um dentista naquele cafofo paquistanês? Vai saber, o cara nem sabia rir, talvez pensasse que saúde odontológica fosse frescura do Ocidente. Obama tem o dele, certamente, com aquele sorrisão maroto… E o nosso deputado Romário? Já viram o chêipi da sua assessora-dentista? Deve estar rindo à toa, o peixe. Certo, estou sendo prolixo, vamos voltar à sala de espera do consultório. Folheio a revista, até que numa página vejo o desenho de um gato preto, com o título da matéria ao lado: ‘Xô, uruca!’ Seis maneiras de espantar o azar a bordo, diz a revista. A primeira é famosa, acredito que todo mundo saiba, até aqueles que nunca pisaram nem mesmo em uma canoa furada: “não rebatize seu barco”. Argumento: barcos têm alma, você não trocaria o nome da sua filha, não é mesmo? A não ser que você adotasse uma pobre menina chamada Pentesileia (perdoem-me as Pentesileias do nosso país, mas ninguém merece um nome desses, e penso que as próprias Pentesileias concordarão comigo; convoco uma que não se apresente simplesmente como Leia às pessoas), nomes de filhos e barcos não devem ser trocados. E vai dizer ao dono de um barco que ele não é como um filho. Além de todo o amor dispensado, ele dirá para você que o trabalho que ele tem com o barco (leia-se: as despesas) é o mesmo que se tem com um filho. A segunda eu não conhecia: “coloque uma moeda sob o mastro”. Argumento: antigamente os navegantes acreditavam que isso garantiria o pagamento de suas almas para o além caso a embarcação afundasse. Vemos que a preocupação com a alma é recorrente. Já esse hábito permanece hoje ainda, é uma superstição, mas você arriscaria cruzar a Terra do Fogo, por exemplo, sem uma moedinha sob o mastro, só para garantir? Pois é, eu também não. A terceira: “jamais deseje ‘boa sorte’ antes de uma pescaria”. Com essa entendo porque meu irmão e meu pai pegavam vários peixes – óquei, não eram vários assim – e eu ficava responsável pela geladeira das latinhas de cerveja, depois de o segundo ou o terceiro peixe trazido a bordo por cada um deles ir para o balde. Eles sempre me desejavam ‘boa sorte na próxima’, porque eu não pegava nem sardinha, e essa azaração ia acumulada para a pescaria seguinte, inevitavelmente. A quarta pode salvar muitos desavisados: “albatroz é sinal de mau tempo”. Se você avistar um, cuidado, tempestade chegando. E diz ainda que o mesmo serve para golfinhos seguindo a embarcação, o que não acredito muito, por já ter presenciado algumas vezes essas agradáveis criaturas brincando de apostar corrida com barcos e nenhuma tempestade chegou para acabar com a farra – a nossa e, muito menos, a deles. A quinta: “nunca zarpe numa sexta-feira”. Argumento (esse eu vou colocar literalmente o que está na revista): “essa superstição inglesa talvez seja a mais difundida no mar. Em inglês, a palavra para sexta-feira, Friday, significa ‘o dia de Freya’, que na mitologia nórdica era a poderosa deusa guardiã do elixir da juventude dos deuses. Melhor tratá-la com o devido respeito e começar seu fim de semana apenas no sábado.” Tenho minhas dúvidas se a matéria da revista soube transmitir direitinho a razão dessa superstição consagrada mundialmente, mas como isso aqui é uma crônica e não uma crítica, vamos à próxima. A sexta: “berimbau a bordo não dá certo!” Óqueióquei. Eles não tinham mais nada a dizer e soltaram essa, mas como não disseram também por que diabos devemos evitar berimbau a bordo, deixo para algum leitor baiano esclarecido o obséquio de nos informar a razão dessa aqui. E agora chega de abobrinha para passar o tempo, porque a secretária acaba de chamar o meu nome, tenho que encarar a sala de tortura. E lá vou eu, consentindo com mais essa barbárie no mundo. Fui.

 


Rodrigo Novaes de Almeida – Jornalista e escritor. Publicou a ficção A saga de Lucifere (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book da Mojo Books, 2009), o livro de contos Rapsódias – Primeiras histórias breves (2009), A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012). Participou do Projeto Portal, organizado por Nelson de Oliveira, e este ano publica com a editora Oito e meio (em coedição com a editora Apicuri) o livro de contos Carnebruta. É colunista do coletivo literário O Bule e do site Página Cultural. A crônica acima foi publicada no livro A construção da paisagem.

Sobre Editora Oito e Meio

Editora Oito e Meio Fundada em 2010, a Editora Oito e meio tem se focado em publicar a ficção produzida pela nova geração, visando contribuir com a formação, organização e divulgação da produção literária contemporânea — Não importa o formato: se romance, conto, miniconto, poesia, prosa poética ou se “nenhum dos anteriores”.

2 Comentários

  1. Muito bacana, Rodrigo. De fato, a gente consente com cada barbárie!

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