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Violeta

Publicado por em 11 de junho de 2012 em Contos | 2 comentários

POR FLÁVIA IRIARTE

Viene viene viene viene el gavilán
truenos suenan ya
yo no tengo dónde estar
yo no tengo dónde estar
yo no tengo dónde estar

 

 

Nada é capaz de dizer a dor de Violeta Parra. As marcas de catapora no rosto. As mãos pequeninas comendo jabuticaba como se sangrassem. O pai branco e bêbado.

Nada é capaz de dizer a dor de Violeta Parra.

 

*

 

Violeta Parra queria que não houvesse aquelas marcas em seu rosto. Ela as esfrega constante e brutalmente, até ferir.

Violeta Parra queria que o pai fosse índio e que o Chile tivesse vocação um pouco maior para o comunismo.

Mas não.

 

*

 

Quando Violeta Parra foi ao Louvre, disseram: “A senhora deve estar com fome. Pode ir à cozinha, lá irão servir o que a senhora quiser. (Mas na cozinha, por favor. Lugar de índio é NA COZINHA). Foi o que Violeta Parra, agora Violenta Parra, ouviu, com toda razão.

E então Violenta Parra joga agressivamente a taça de champagne no chão e xinga o parisiense. Mas tudo soa como se Violeta Parra fosse: a) uma índia mal-educada   b) uma comunista recalcada  c) uma mulher um tanto cafona e mal-comida.

 

Violeta Parra sai do Louvre com mais ódio ainda nos nos seus punhos cerrados. A vida de Violeta Parra não é nada fácil. Ela é índia, comunista e já passou dos quarenta.

Seu filho Ángel é um rapaz bondoso e com certa alegria, que suporta bem a vida. Não há qualquer explicação para isso. Ángel é simplesmente assim. Índio, comunista e segue Violeta em suas andanças pelo Chile.

Já Isabel, a filha de Violeta, é uma moça um tanto silenciosa e triste. Ela lembra Violeta, para quem a vida também é dolorosa e selvagem.

Um dia, Isabel diz à mãe: “Sabe no que eu pensei hoje enquanto tomava banho?”. “Humm.”

“Cortar as veias”, diz Isabel.

Violeta dá um tapa na cara de Isabel, gritando com firmeza: “Isso não se anuncia. SE FAZ”.

 

*

 

Violeta tem o sonho de armar uma grande tenda no meio do nada chileno. Isso talvez a faça feliz.

Violeta realiza o sonho de armar uma grande tenda no meio do nada chileno. Isso não a faz feliz, porém.

Lá qualquer um pode ir. Qualquer índio. Por mais fodido. Por mais comunista. Por mais feio que seja, pode ir à tenda que Violeta Parra armou no meio do nada chileno e tomar uma taça de vinho, comer um pedaço de pão e ouvir Violeta Parra tocar e cantar com toda a sua dor.

Mas começa a chover. Começa a chover muito. Começa a chover violentamente e a água começa a infiltrar na barraca. Violeta continua cantando com toda a sua dor, mas as pessoas da plateia começam a ir embora. As pessoas da plateia continuam a ir embora até não restar ninguém assistindo a Violeta. Teria sido melhor se alguma daquelas pessoas tivesse ficado, embora nenhuma delas seja capaz de entender a sua dor. NENHUMA daquelas pessoas é capaz de entender a dor de Violeta Parra. NENHUMA.

Violeta Parra também não é capaz de entender a dor dela própria, Violeta Parra, e por isso só há UMA FORMA para Violeta de ir embora.

 

*

 

No dia seguinte, Ángel vai ver a mãe em seu quarto. Violeta finge-se de morta para Ángel. Aquela era uma brincadeira típica de Violeta, fingir-se de morta para os filhos. Possivelmente para acostumá-los com a morte. Possivelmente para acostumar a ela própria com a morte.

Violeta volta a sua tenda no meio do nada chileno naquele dia. Está tudo um caos. A chuva destruíra tudo. Mas isso não importa mais para Violeta.

 

Para Violeta tudo sempre esteve quebrado.

Sobre Flávia Iriarte

Flávia Iriarte Flávia Iriarte formou-se em Cinema pela UFF e chegou a trabalhar como pesquisadora de cinema brasileiro e realizar 4 curtas. No fim das contas, acabou rendendo-se ao chamado da literatura. Em 2010, fundou a editora Oito e meio e hoje divide seu tempo entre o trabalho na editora e o mestrado em “Literatura, cultura e contemporaneidade”, na PUC-Rio

2 Comentários

  1. Flavia.Este texto é lindo e triste.Ele revela a verdadeira vida da violeta chilena

    • Muchas gracias por bnridarnos estos temas, es un espacio de mucha calidad y con sentido muy dide1ctico. Muchas gracias, los escucho en Baja California, Me9xico.

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