Túneis
(Um texto de Rafael Sperling)
Dagda gostava de ler revistas. Ela não sabia ler direito, mas gostava de olhar as imagens. Havia frequentado escolas caríssimas, assistido às aulas, mas não conseguira aprender a ler direito. Então ela olhava as fotos das revistas. Via aquelas pessoas sorrindo e fazendo coisas, embora não entendesse o que estava acontecendo. Ela se esforçava muito para ler. Passava horas tentando decifrar o que estava escrito – tentava relacionar as imagens com os textos. Isso ocupava praticamente todo o seu tempo.
Enquanto isso, Plonho ficava no berço, abandonado. Sua mãe quase nunca ia ver se estava precisando de alguma coisa, de um banho ou de comida. E quando vinha, era sempre com uma revista na mão; mal tirava os olhos da revista, e quando tirava era só por distração mesmo. Como era um bebê, Plonho não sabia fazer nada. Então, ele ficava ouvindo os sons da rua. As pessoas falando, os carros, as obras, os cachorros latindo. Gostava especialmente do barulho dos carros. Ele queria muito poder ver os carros de perto.
Um belo dia, enquanto sua mãe tentava decifrar uma matéria sobre cirurgias plásticas em mamilos, Plonho escalou e saltou de seu berço. Ele caiu de cabeça no chão e chorou, mas sua mãe não fez nada além de emitir um gemido, dando a entender que havia escutado o impacto. Plonho não havia se machucado muito e logo se pôs a engatinhar. Foi até a porta da rua e se levantou do chão, na tentativa de abrir a porta. Começou a bater na porta e a gritar loucamente. Sua mãe, sem tirar os olhos de uma matéria sobre musculação para cachorros, caminhou até a porta e a abriu, falando algo como “se cuida”, para Plonho. Plonho engatinhou para fora de casa.
Plonho e Dagda moravam de frente para uma rua muito movimentada. Milhares de carros passando sem parar. Num momento de calmaria, Plonho engatinhou até o meio da avenida e parou. Livrou-se de suas fraldas. E, após encostar sua cabeça contra o asfalto, utilizando as duas mãos, abriu seu cu. Um primeiro carro adentrou a avenida em alta velocidade; o motorista ainda tentou buzinar ao ver a bunda de Plonho logo à frente de seu veículo, mas era tarde demais. O veículo adentrou o cu de Plonho. Plonho sorriu e achou muito engraçado. Como Plonho era muito pequeno, os motoristas não o enxergavam até pouco antes de estarem adentrando seu orifício anal. Seguiram-se muitas horas – milhares e milhares de veículos caíram nessa armadilha inocente. Os veículos iam entrando em seu cu, e desapareciam.
Num certo momento Plonho começou a se sentir mal, a quantidade de veículos dentro de seu reto e intestino grosso estava começando a ficar demasiado grande; os novos veículos acabavam empurrando os que primeiro haviam chegado ali. Já havia, agora, veículos no estômago. E assim, os veículos começaram a ser empurrados e empurrados até alcançarem a boca de Plonho – então, aquele primeiro veículo que adentrou o cu de Plonho pode prosseguir viagem. E assim, com o passar do tempo, o fluxo de carros se normalizou, de forma que a quantidade de carros que entrava era igual a que saia.
Até que um dia Plonho enjoou daquilo, resolveu que iria voltar para casa. Fechou seu cu – o que causou grande indignação dos motoristas, pois era hora do rush – e esperou que os carros que transitavam dentro de seu corpo terminassem de sair. Depois disso, engatinhou para a calçada e até a porta de sua casa. Esmurrou a porta até sua mãe a abrir.
Sem tirar os olhos de uma revista pornográfica especializada em sexo anal, ela disse “oi, filho”. Plonho engatinhou até seu berço e dormiu. Sonhou com túneis e estações de metrô.




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