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Amores e um século

Publicado por em 21 de fevereiro de 2011 em Contos | 0 comentários

(Um texto de Rafael Sperling)

E o amor, aquele amor enorme, aquele amor cheio de gente, grande pra caralho, amor que entope os canos. Esse amor de gente maluca e esquizofrênica, que gosta de bater a cabeça na parede e de jogar dardos em estrume. Amor de pernas compridas, vestindo bota de plástico amarelo, cozinhando bife com batata frita, em cima da montanha. Devendo dinheiro e coberto de chocolate quente. De manhã cedo e sonhando com as pessoas do ódio negro. Fazendo musculação com o poste e escrevendo leis lógicas. Dentro do disco de prata no museu e com medo de sair na rua. Sapateando na farda verde e se segurando pra não cair no abismo. Guardado no pote de sorvete e pegando um avião pra França. No fone de ouvido metálico e na aba do chapéu. No meio do fogo da churrasqueira e dentro das pálpebras. Se jogando no fosso do elevador e atarraxando as porcas. Mastigando madeira e conferindo as notas fiscais. Na areia do deserto e ao lado do fio dental. Saindo pelo chafariz e arrastando bolas de ferro. Dizendo “as facas são de boa qualidade” e “Certamente sou hermafrodita”. Vestindo roupa de balé e espancando mendigos. Sendo usado como tempero e pintando a unha com esmalte roxo. Sendo usado para assassinar padres e como lubrificante íntimo. Sendo lançado como bola de boliche, na cara dos presidentes de associações de moradores. Correndo pelado pela rua enquanto se masturba freneticamente. Tentando despedaçar a parede do banheiro, já que acabou o papel higiênico. Chupando cabo de eletricidade e chutando almofadas macias.

            Amor de pata. E de coice. Amor de tangerina podre. Amor com cubos de vidro derretendo. Amor sabor catarro. O amor que achei dentro do sanduíche. O amor que falou sobre os telefones incendiários. Amor que colocou silicone na barriga.

            O amor já chegou dizendo que estava querendo mudar de vida, gostaria de pedir um conselho. Disse que estava puto com as coisas. Eu disse que ele devia evitar as coisas. Mas é difícil evitar as coisas, elas estão em todos os lugares, ele falou. Quais coisas você quer evitar? Todas, ele respondeu, todas as coisas que existem. Qual o problema das coisas? “O problema é que elas existem”. Mas é claro, falei. “Pois é, mas eu não existo”.

            O menino estava andando e tropeçou. Bateu com a boca em uma lata enferrujada e quebrou os dentes. Foi levado ao hospital. Alguns dias depois, estava com a cara toda infeccionada, apodrecida, cheia de pus. Tiveram que arrancar os dentes todos, mas não adiantou. “Vamos ter que arrancar a cabeça fora, para não comprometer o resto do corpo”. Botaram a cabeça do garoto na guilhotina e perguntaram se ele queria dizer algo antes que cortassem sua cabeça fora. Ele disse: Isso é AMOR.

            A mulher estava em casa. Entraram 15 ladrões. Quebraram tudo, reviraram os cômodos. Perguntaram pelas jóias. A mulher disse que não tinha. Ameaçaram matá-la caso não as entregasse. A mulher chorou e disse não estar mentindo. Os homens pegaram canos de ferro para espancar a mulher. Enquanto isso chegava o marido. Viu o que estava acontecendo do lado de fora. O marido entrou munido de muito amor e partiu para cima dos ladrões. Eles estraçalharam o marido e depois estupraram a mulher antes de matá-la. Com amor.

            O garotinho foi até a privada. Ele nunca havia utilizado esse dispositivo urino-fecal. Sentou-se com muita dificuldade e despejou tudo lá dentro. Depois chamou a mãe. “O que é isso, filho?”, “É amor, mãe”.

            O amor chegou na churrascaria cedo, no início da tarde. Ele começou a comer. Comeu muito, durante várias horas. “O senhor está bem? Não acha que já comeu demais?”, “Não, estou com fome, ainda”. E continuou a comer. Depois de mais algumas horas, começou a berrar de dor. Em pouco tempo seu corpo começou a rachar. Mas não parou de comer.

Em breve, vem aí, pela Editora Oito e meio, Festa na usina nuclear,  primeiro livro de Rafael Sperling.

Sobre Rafael Sperling

Rafael Sperling nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Compositor e produtor musical, estuda Composição na UFRJ, além de escrever no blog somesentido. Seu primeiro livro, Festa na usina nuclear, foi lançado pela Editora Oito e meio, em 2011.

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